terça-feira, 10 de Novembro de 2009

viveste

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segundo livro publicado
chiado editora
sobre o meu pai

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

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anabarbarapedrosa@blocovizela.org

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

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sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

2 textos escritos há uns anos

A perversão sexual dos professores
Em média, dois professores são agredidos por dia. No ano passado, registaram-se 390 casos de violência contra professores, o que, descontando férias, feriados e fins-de-semana, dá uma média de duas agressões diárias. A Linha SOS Professor, criada em Setembro passado, já teve cerca de 130 queixas. Quanto a mim, acho perfeitamente compreensível. O estado a que o ensino português chegou é, sem querer culpar ninguém, dos professores. Nós, os alunos, não queremos estar na escola, pelo que somos de imediato excluídos. O ministério tem menos culpa ainda, já que muda quase todos os anos. Os professores são, portanto, os únicos que resistem tempo suficiente para poder fazer asneira. Pelo menos os que ainda vão garantindo o seu emprego. Torna-se óbvio que temos de castigar de alguma forma estes formados incompetentes.
Repare-se: um professor é um indivíduo que reclama do ordenado e do trabalho, que corre o risco de se tornar em nómada e de ser sovado por um delinquente qualquer que cisma em não querer aprender a dividir orações. Como é que pomos gente desta a ensinar? Se tivessem realmente algum tipo de conhecimento prático, tê-lo-iam usado em proveito próprio.
Ser professor não é uma vocação: é uma falta de juízo. Esta gente que parece gostar de andar de terra em terra a espalhar o horror e a aterrorizar a vida a dezenas de alunos deixou de ter valor para quase toda a gente. Gente que se sujeita a más condições de vida, que teima em ensinar a diferença entre pronomes e determinantes a quem não quer aprender e que ainda vive na insegurança, correndo o risco de ver aparecer um pai regateiro que não gostou da negativa do filho, quando é suposto que seja inteligente e transmita sabedoria, não pode inspirar confiança a ninguém. Se dantes um professor batia para amansar, agora é sovado para se calar. Passamos de professores que batiam a professores espancados. Estas relações entre estudantes sádicos e pedagogos masoquistas não deviam ser permitidas pelo Ministério. Afinal, somos apenas crianças, estamos à espera que alguém mais competente e vivido do que nós tome esse tipo de relações sensatas e imprescindíveis.
Claro que é mais do que compreensível que um aluno bata num professor. Este tipo de relações vem comprovar o progresso positivo a que vamos assistindo a toda a hora. O contrário é que seria impensável. Horroriza-me pensar que poderia levar umas reguadas por não saber em que ano é que D. Miguel foi exilado pela primeira vez. Agora dar dois tabefes a um professor porque ele marca demasiados trabalhos de casa é perfeitamente justificável. Até a mim já me apeteceu. A mim, imagine-se; eu, que sou uma menina tão bem comportada e tão subordinada às regras.
Com base nestas relações, julgo que me é possível afirmar que ser professor é ser sexualmente pervertido. Quer os professores antigos, os sádicos, quer os professores modernos, os masoquistas, têm gostos um tanto ou quanto estranhos, gostos esses que têm a ver com as suas preferências sexuais – sádicas ou masoquistas – e onde nós, alunos, nos vemos, sem querer, numa relação, portanto, sexual, camuflada por verborreias, contas e histórias do passado. E mais não digo. Leiam Freud. Talvez percebam estes instintos peculiares de que me venho a aperceber. Deste modo, cada vez me vai assustando mais ir à escola, que pretensamente seria um lugar seguro, mas onde somos confrontados com estes adultos perigosos e infelizes.
Os professores que nunca foram agredidos são demasiado competentes para que possamos gostar deles: a juventude quer e gosta de borga, toda a gente o sabe; os que já foram, são idiotas, porque não souberam guiar a polícia até ao jardim zoológico onde vivem os agressores.
O aterrador temperamento dos professores
(Polémica – parte 2)

Parece que há por aí uma rebelião de professores que me querem bater por andar a espalhar por aí algumas verdades e a esclarecer mentes obscuras. Parece que, depois de compreenderem o Teorema de Pitágoras, decorarem as capitais de todos – repito, todos! – os países da Península Ibérica e de aprenderem a contar até dez em inglês, os professores querem também aprender a lançar granadas e a disparar à distância. Alguns chegaram mesmo a cancelar a assinatura deste jornal e outros dizem que, se me virem na rua, me dão duas lambadas para ver se eu aprendo a não brincar com a profissão deles.
Deixo aqui publicada uma carta aos pedagogos ofendidos.

Caríssimos senhores professores:

Em primeiro lugar, gostava de pedir-vos que parassem de enviar e-mails e de fazer reclamações ao senhor director deste jornal, que não tem culpa nenhuma do que eu escrevo e, portanto, não tem que ser chateado com as vossas queixas. Eu escrevi o texto, assumo as responsabilidades e poderei explicar-vos o que quer que seja que não tenham entendido. Sou uma pessoa compreensiva: imagino que, para um professor, seja complicado analisar e perceber textos e, meus amigos, só vos quero ajudar. Se quiserem reclamar com alguém, façam-no directamente. Até o podem fazer pessoalmente. Moro na terceira casa da minha rua. Apareçam! Podemos falar educadamente enquanto tomamos um chá.
Em segundo lugar, comparsas adorados, gostava de vos pedir, por gentil favor, que prestassem mais atenção às minhas palavras. Tenho uma média muito boa: por cada página de baboseiras, costumo dizer uma frase acertada. Até pode ser que aprendam umas coisinhas. As pessoas humildes têm consciência de que têm sempre algo a aprender. Costuma-se dizer que as crianças têm muito a ensinar aos adultos. Estou, portanto, numa posição privilegiada e é nesta posição que vou procurar devolver-vos a alegria de viver. Às vezes assusta-me a forma como os adultos têm uma visão tão negra das coisas. Que diabo, agora as pessoas chateiam-se por qualquer coisinha. Já não se pode chamar tarado sexual a ninguém sem se ser recebido com violência. Sem querer ofender ninguém, parece-me que qualquer mentecapto conseguia perceber a ironia do texto que causou tanta polémica e que produziu em vós tão grande consternação. Se não fosse por outras razões, bastava que pensassem que eu, na minha condição de ser pensante, não me iria arriscar a reprovar o ano.
“Os professores que nunca foram agredidos são demasiado competentes para que possamos gostar deles: a juventude quer e gosta de borga, toda a gente o sabe; os que já foram, são idiotas, porque não souberam guiar a polícia até ao jardim zoológico onde vivem os agressores.” Isto escrevi eu e, ao que parece, os meus queridos senhores não me deram a mínima atenção. É incrível como esta espécie que está sempre a mandar-me calar e a exigir-me atenção noventa minutos após noventa minutos não consegue ler um texto de 3102 caracteres atentamente. Repare-se: “não souberam guiar a polícia até ao jardim zoológico onde vivem os agressores”. “Jardim zoológico”. Tenho mesmo que explicar? Não me parece. Vou deixar a questão ao vosso cuidado. Por certo, os meus caros amigos são pessoas inteligentes.
Que falta de sentido de humor, meus senhores! Que intolerância! Onde está a tão aclamada liberdade de expressão? Vamos tentar falar como pessoas civilizadas que somos e não ofereçamos porrada uns aos outros. Que diabo, eu sou uma criança. Bater em menores dá cadeia!
Vejam que filantropia! Depois de ser ameaçada, tenho a gentileza de me preocupar com os ameaçadores desconhecedores da lei e da ética.
Acreditem que vos percebo: a ironia está em vias de extinção e, ao que parece, fui um dos poucos entes abençoados com este dom. Ninguém é obrigado a perceber mais do que aquilo que lhe permitem as suas capacidades.
E, meus queridos amigos, antes que me roguem pragas e me agridam na rua, deixo aqui por escrito que até há alguns professores que gostam de mim. Em média, em cada dez professores que tenho, há um que até me sorri na rua, e eu sou uma pessoa pura, acredito na sinceridade: as pessoas não me iam sorrir se não gostassem de mim. Além disso, toda a gente sabe que as minorias estão certas.
Por fim, prometo-vos, caros companheiros de horas de horror e de cárcere, que vou passar a escrever textos mais simples para que os possais compreender.

Um abraço do sonho de qualquer professor,
Ana Bárbara

P.S. Claro que há professores inteligentes! Aqueles que não ficaram ofendidos ou perturbados com o meu texto podem considerar-se lúcidos. Ou, pelo menos, têm sentido de humor, o que já é muito bom.
(Ambos os textos foram publicados no jornal "O Povo de Guimarães". Em 2006, julgo.)

A Ágata, meus amores, é comunista

Tive de chegar a esta idade avançada para perceber as evidências das pistas dadas pela Ágata nos portentos musicais que tem criado. Numa destas noites, perdida entre os sons da Ágata, da Romana e da Mónica Sintra, a luz invadiu-me e percebi que a nossa adorada Ágata é, como os senhores mais prezados deste país, fã incondicional de Marx. Aliás, na sua belíssima canção “Comunhão de Bens”, a nossa amiga não diz outra coisa. À partida, a palavra “comunhão” iria sugerir-nos uma partilha dos bens. No entanto, a Ágata prescinde das jóias, do carro, da casa e até das contas do banco e da casa de campo. Torna-se evidente que a nossa estimável cantora não acredita na propriedade privada. O que ela quer é o miúdo. O resto é indiferente. Desde que o senhor de bigode não pegue na criança, está tudo bem para a Ágata.
Autoriza o mal parecido senhor a levar os pertences de ambos em função da sua vida social. Quer um puto com quem possa falar. Não lhe importa o resto nem que digam que ela não presta. O que importa é a vida social da Ágata (lá está, o socialismo). E toda a gente sabe que é partir daí que se chega ao comunismo. Repare-se: uma senhora que não quer saber da propriedade privada (que a rejeita, ainda que tenha todo o direito a ela) e que preza as pessoas só podia ser um dos rostos incontornáveis do comunismo moderno. Pois, por mim, que se mande a Odete às urtigas que a Ágata está cá para as curvas. Além disso, julgo que é evidente que é preciso um semblante jovial e delicado para refrescar as hostes comunistas. E que se danem os atropelamentos da gramática: o que importam são os ideais hercúleos que a nossa prezada artista nos transmite com a sua voz sedosa.
E agora, meus amores, parece-me claro que, se até a tia da Romana entendeu que o Sócrates não é solução e que só pelas asas da esquerda é que vamos lá, devíamos votar todos no partido mais à esquerda possível. Não é difícil descobrir qual é, já que é o único que tem a palavra “esquerda” no seu nome.
Quanto a mim, posso dizer que, enquanto os meus caros amigos se apercebem de que a Ágata é que é e que as suas lições de vida nos deixam frente a frente com a moral mais correcta, continuarei a analisar estes poemas cantados. Não encontrei nada em Ary dos Santos ou em Paulo de Carvalho. Contudo, parece-me que a Romana nos tem algo a dizer. “Não és homem para mim” é, se a minha análise, a publicar posteriormente, estiver correcta, um hino ao feminismo. Repare-se que uma mulher que se revolta e que não tem pudor em dizer ao público que fingiu prazer (“apenas vês em mim uma fonte de prazer/ prazer que eu fingi muitas vezes também ter”) tem de ter em si um carácter heróico e revolucionário.
A Ágata é uma comunista incontestável. A Romana é uma feminista exponencial e revolucionário. Que diabo. O que podemos esperar do Mickael Carreira?
Texto publicado no jornal "O Povo de Guimarães"

Obrigados, senhor Presidente da Câmara

Julgo que falo por toda a população vizelense ao agradecer ao nosso querido Presidente da Câmara por todo o trabalho que teve ou mandou ter para que todos pudéssemos ter em casa aquelas revistinhas nas quais nos podemos deleitar com o seu porte inigualável e com a sua beleza singular.
Este, digamos, monstro propagandístico foi-me muito mais útil do que aquilo que podem imaginar. Como já estou enamorada com o meu Bloco de Esquerda, não pude ficar a contemplar a divindade que é o rosto de Francisco Ferreira. Por essa razão, e reconhecendo a qualidade do papel utilizado, quis fazer feliz outro ser vivo. O meu porquinho-da-índia vive, agora, muito mais ditoso. Felizmente para o pessoal da casa, a dita revista chegou no dia de limpeza da gaiola. Estava eu à procura de papel suficientemente forte para forrar a gaiola, quando o meu amigo carteiro chegou, anunciando que trazia algo que me traria a felicidade. Embora me tenha realmente encantado ver o nosso amigo em quase cada página, o certo é que a alegria maior viria para a minha Alice. Agora, lá está ela, na sua gaiola limpa e bem protegida, comendo palha, cenouras, favas, alface, brócolos e outras coisas que eu não como.
Apraz-me ver que não sou a única a gostar de animais. Pelos vistos, neste tema, eu e o senhor Ferreira somos parceiros. Repare-se que não é qualquer Presidente que se preocupa com o bem-estar dos animais de estimação do povo da sua terra. Mas Francisco Ferreira preocupou-se. Agora, todos podemos ter os nossos porquinhos-da-índia em segurança, com higiene e conforto, pelo menos durante uma semana.
Fiquei tão emocionada com este gesto que ensinei a minha Alice a guinchar “Vizela, tu és rainha” enquanto corre à volta da gaiola. Para tornar a minha miúda ainda mais feliz, escrevi, na parte exterior da gaiola, com tinta permanente, “Francisco, tu és porreiro, pá!”. E lá está ela, feliz da vida, a mostrar os dentinhos, com uma felicidade nunca antes vista nesta casa.
Em vez do papel de jornal horrendo que costumo usar, lá está um bom papel com umas imagens agradáveis a espreitar pelo meio da palha. O ambiente cá de casa anda tão aprazível e a minha Alice anda tão sossegada que, se outra revista vem cá para casa, é certo que dou um companheiro à minha miúda. Há quem se queixe de já ter recebido três. Gente sem porquinhos-da-índia, só pode ser.
Por todo o povo vizelense: obrigados, senhor Ferreira. Obrigados.
(com um ano de atraso)

A minha avó precisa de Educação Sexual, não eu


Numa altura em que anda tudo a exigir Educação Sexual nas escolas, venho meter o nariz na questão e dizer que sou contra a existência dessa disciplina nas escolas. Tendo em conta que no mundo há locais agradáveis como camas, sofás ou banheiras, não me parece que devamos ser educados a esse nível numa sala de aula – local desconfortável e impróprio para essas bonitas práticas. Além disso, a lei proíbe relações amorosas entre professores e alunos. Gostava também de salientar que a teoria nunca leva a nada. Se queremos aprender, praticamos. É assim com a culinária e é assim com tudo o resto.
Além disso, devo salientar que os miúdos de hoje em dia já sabem tudo o que há para saber. Às vezes, mandam umas piadas relacionadas com o tema e eu, que já estou ultrapassada, forço o riso e finjo que a entendo para que a fileira de pessoas que me acham parva não engrosse.
Se querem ensinar coisas sobre sexo a alguém, façam-no com os idosos. Ao longo dos anos, tenho vindo a aperceber-me (não me pareceu correcta a expressão “tenho me vindo”, que utilizaria caso não estivesse a escrever) que a minha avó é muito ingénua e que não percebe muito do assunto. Aliás, duvido que ela saiba como é que o meu pai nasceu. Lembro-me de lhe ter perguntado, há uns anos, como nasciam os bebés e de a pobre senhora me ter dito que eram trazidos por uma cegonha que vinha de Paris. Acho que isto prova que, realmente, a minha avó está muito mal educada a nível sexual. Com mais de 70 anos, não me parece que se tenha apercebido da realidade e que tenha deixado de viver no seu mundo cor-de-rosa. E eu, com 17, sei perfeitamente que o papá põe uma sementinha na mamã, porque a acha muito bonita. A mamã, por sua vez, aceita a dita semente, porque acha que o papá é um senhor muito jeitoso. Concluímos que eu, meus amigos, sei mais do que a minha avó. Eu, jovem, sei mais do que a minha avó, idosa. E é a mim e a outros tantos como eu que querem pôr a estudar aquilo que já sabemos. Injusto. E ilógico.
Nós, os jovens de hoje, podemos não perceber muito de educação - é verdade. Mas de sexo, meus amigos, de sexo percebemos nós. Ainda que não o tenhamos experimentado, todos sabemos que emagrece, exercita a mente e retarda o envelhecimento. E isto é o que interessa saber, já que nos permitirá ser idosos jeitosos e conhecedores do processo de elaboração dos bebés. De resto, pouco importa o que pode acontecer.
Se, por acaso, nos confins do mundo, há bebés que nascem porque os pais pensavam que estavam a brincar às casinhas, não há motivo para alarme. É necessário assegurar a preservação da nossa espécie e, para tal, cada um de nós deve cumprir o seu dever. Numa altura ou noutra. Com uma pessoa ou outra. Eu já comecei a trabalhar para o bem do mundo e plantei três rosas no meu quintal. A preservação da espécie fica para outra altura.
Crónica publicada no RV Jornal