A perversão sexual dos professores
Em média, dois professores são agredidos por dia. No ano passado, registaram-se 390 casos de violência contra professores, o que, descontando férias, feriados e fins-de-semana, dá uma média de duas agressões diárias. A Linha SOS Professor, criada em Setembro passado, já teve cerca de 130 queixas. Quanto a mim, acho perfeitamente compreensível. O estado a que o ensino português chegou é, sem querer culpar ninguém, dos professores. Nós, os alunos, não queremos estar na escola, pelo que somos de imediato excluídos. O ministério tem menos culpa ainda, já que muda quase todos os anos. Os professores são, portanto, os únicos que resistem tempo suficiente para poder fazer asneira. Pelo menos os que ainda vão garantindo o seu emprego. Torna-se óbvio que temos de castigar de alguma forma estes formados incompetentes.
Repare-se: um professor é um indivíduo que reclama do ordenado e do trabalho, que corre o risco de se tornar em nómada e de ser sovado por um delinquente qualquer que cisma em não querer aprender a dividir orações. Como é que pomos gente desta a ensinar? Se tivessem realmente algum tipo de conhecimento prático, tê-lo-iam usado em proveito próprio.
Ser professor não é uma vocação: é uma falta de juízo. Esta gente que parece gostar de andar de terra em terra a espalhar o horror e a aterrorizar a vida a dezenas de alunos deixou de ter valor para quase toda a gente. Gente que se sujeita a más condições de vida, que teima em ensinar a diferença entre pronomes e determinantes a quem não quer aprender e que ainda vive na insegurança, correndo o risco de ver aparecer um pai regateiro que não gostou da negativa do filho, quando é suposto que seja inteligente e transmita sabedoria, não pode inspirar confiança a ninguém. Se dantes um professor batia para amansar, agora é sovado para se calar. Passamos de professores que batiam a professores espancados. Estas relações entre estudantes sádicos e pedagogos masoquistas não deviam ser permitidas pelo Ministério. Afinal, somos apenas crianças, estamos à espera que alguém mais competente e vivido do que nós tome esse tipo de relações sensatas e imprescindíveis.
Claro que é mais do que compreensível que um aluno bata num professor. Este tipo de relações vem comprovar o progresso positivo a que vamos assistindo a toda a hora. O contrário é que seria impensável. Horroriza-me pensar que poderia levar umas reguadas por não saber em que ano é que D. Miguel foi exilado pela primeira vez. Agora dar dois tabefes a um professor porque ele marca demasiados trabalhos de casa é perfeitamente justificável. Até a mim já me apeteceu. A mim, imagine-se; eu, que sou uma menina tão bem comportada e tão subordinada às regras.
Com base nestas relações, julgo que me é possível afirmar que ser professor é ser sexualmente pervertido. Quer os professores antigos, os sádicos, quer os professores modernos, os masoquistas, têm gostos um tanto ou quanto estranhos, gostos esses que têm a ver com as suas preferências sexuais – sádicas ou masoquistas – e onde nós, alunos, nos vemos, sem querer, numa relação, portanto, sexual, camuflada por verborreias, contas e histórias do passado. E mais não digo. Leiam Freud. Talvez percebam estes instintos peculiares de que me venho a aperceber. Deste modo, cada vez me vai assustando mais ir à escola, que pretensamente seria um lugar seguro, mas onde somos confrontados com estes adultos perigosos e infelizes.
Os professores que nunca foram agredidos são demasiado competentes para que possamos gostar deles: a juventude quer e gosta de borga, toda a gente o sabe; os que já foram, são idiotas, porque não souberam guiar a polícia até ao jardim zoológico onde vivem os agressores.
O aterrador temperamento dos professores
(Polémica – parte 2)
Parece que há por aí uma rebelião de professores que me querem bater por andar a espalhar por aí algumas verdades e a esclarecer mentes obscuras. Parece que, depois de compreenderem o Teorema de Pitágoras, decorarem as capitais de todos – repito, todos! – os países da Península Ibérica e de aprenderem a contar até dez em inglês, os professores querem também aprender a lançar granadas e a disparar à distância. Alguns chegaram mesmo a cancelar a assinatura deste jornal e outros dizem que, se me virem na rua, me dão duas lambadas para ver se eu aprendo a não brincar com a profissão deles.
Deixo aqui publicada uma carta aos pedagogos ofendidos.
Caríssimos senhores professores:
Em primeiro lugar, gostava de pedir-vos que parassem de enviar e-mails e de fazer reclamações ao senhor director deste jornal, que não tem culpa nenhuma do que eu escrevo e, portanto, não tem que ser chateado com as vossas queixas. Eu escrevi o texto, assumo as responsabilidades e poderei explicar-vos o que quer que seja que não tenham entendido. Sou uma pessoa compreensiva: imagino que, para um professor, seja complicado analisar e perceber textos e, meus amigos, só vos quero ajudar. Se quiserem reclamar com alguém, façam-no directamente. Até o podem fazer pessoalmente. Moro na terceira casa da minha rua. Apareçam! Podemos falar educadamente enquanto tomamos um chá.
Em segundo lugar, comparsas adorados, gostava de vos pedir, por gentil favor, que prestassem mais atenção às minhas palavras. Tenho uma média muito boa: por cada página de baboseiras, costumo dizer uma frase acertada. Até pode ser que aprendam umas coisinhas. As pessoas humildes têm consciência de que têm sempre algo a aprender. Costuma-se dizer que as crianças têm muito a ensinar aos adultos. Estou, portanto, numa posição privilegiada e é nesta posição que vou procurar devolver-vos a alegria de viver. Às vezes assusta-me a forma como os adultos têm uma visão tão negra das coisas. Que diabo, agora as pessoas chateiam-se por qualquer coisinha. Já não se pode chamar tarado sexual a ninguém sem se ser recebido com violência. Sem querer ofender ninguém, parece-me que qualquer mentecapto conseguia perceber a ironia do texto que causou tanta polémica e que produziu em vós tão grande consternação. Se não fosse por outras razões, bastava que pensassem que eu, na minha condição de ser pensante, não me iria arriscar a reprovar o ano.
“Os professores que nunca foram agredidos são demasiado competentes para que possamos gostar deles: a juventude quer e gosta de borga, toda a gente o sabe; os que já foram, são idiotas, porque não souberam guiar a polícia até ao jardim zoológico onde vivem os agressores.” Isto escrevi eu e, ao que parece, os meus queridos senhores não me deram a mínima atenção. É incrível como esta espécie que está sempre a mandar-me calar e a exigir-me atenção noventa minutos após noventa minutos não consegue ler um texto de 3102 caracteres atentamente. Repare-se: “não souberam guiar a polícia até ao jardim zoológico onde vivem os agressores”. “Jardim zoológico”. Tenho mesmo que explicar? Não me parece. Vou deixar a questão ao vosso cuidado. Por certo, os meus caros amigos são pessoas inteligentes.
Que falta de sentido de humor, meus senhores! Que intolerância! Onde está a tão aclamada liberdade de expressão? Vamos tentar falar como pessoas civilizadas que somos e não ofereçamos porrada uns aos outros. Que diabo, eu sou uma criança. Bater em menores dá cadeia!
Vejam que filantropia! Depois de ser ameaçada, tenho a gentileza de me preocupar com os ameaçadores desconhecedores da lei e da ética.
Acreditem que vos percebo: a ironia está em vias de extinção e, ao que parece, fui um dos poucos entes abençoados com este dom. Ninguém é obrigado a perceber mais do que aquilo que lhe permitem as suas capacidades.
E, meus queridos amigos, antes que me roguem pragas e me agridam na rua, deixo aqui por escrito que até há alguns professores que gostam de mim. Em média, em cada dez professores que tenho, há um que até me sorri na rua, e eu sou uma pessoa pura, acredito na sinceridade: as pessoas não me iam sorrir se não gostassem de mim. Além disso, toda a gente sabe que as minorias estão certas.
Por fim, prometo-vos, caros companheiros de horas de horror e de cárcere, que vou passar a escrever textos mais simples para que os possais compreender.
Um abraço do sonho de qualquer professor,
Ana Bárbara
P.S. Claro que há professores inteligentes! Aqueles que não ficaram ofendidos ou perturbados com o meu texto podem considerar-se lúcidos. Ou, pelo menos, têm sentido de humor, o que já é muito bom.
(Ambos os textos foram publicados no jornal "O Povo de Guimarães". Em 2006, julgo.)